Sven Instisnke conta experiência alemã e aborda o novo jeito de ‘ser’ biblioteca
12 DE agosto DE 2019
O que mais interessa na discussão sobre o impacto tecnológico pelo qual as bibliotecas contemporâneas estão passando é que o essencial – o local de encontro – se mantenha preservado. Foi com esta abordagem humanista que o convidado alemão Sven Instinske desenvolveu suas ideias em torno do tema “Internet, smartphones, games e making spaces: recursos atuais para interação digital”, durante o 11º Seminário Internacional Biblioteca Viva.
Instinske vive e trabalha em Hamburgo, a segunda maior cidade alemã, com 1,8 milhão de habitantes, dos quais 35% são imigrantes. Como chefe de serviços eletrônicos da Bücherhallen Hamburg, rede pública municipal de bibliotecas composta por 33 unidades espalhadas por bairros e duas unidades móveis, ele está às voltas com o licenciamento de filmes, ebooks, aquisição de games não violentos. Mas isso é apenas parte do que compõem a ‘sala de estar’, apelido carinhoso das bibliotecas em seu país.
A biblioteca, para cumprir efetivamente seu papel, deve possibilitar que seu público se sinta à vontade, e isso pode ser traduzido por relações horizontais e diálogo. Sim, na Bücherhallen é permitido comer, jogar, fazer barulho, aprender coisas novas. E ler. Orientado por este novo jeito de ‘ser’ das bibliotecas, Instinske explicou à uma plateia atenta de mais de 850 estudantes, bibliotecários e educadores, como lida com os novos desafios.
As competências do brincar
A nova geração de bibliotecas implica em mudanças de perfil profissional, de acervo, de mobiliário. “Não podemos mais fazer compras físicas como há alguns anos. E precisamos aprender a produzir um evento de games, por exemplo, de uma hora para outra. Diante desses desafios, nos abrimos para outros profissionais e isso faz bem para todos”, aponta Instisnke, que como seus colegas de equipe, tem formação em biblioteconomia.
Para afiar os funcionários em novas mídias, a biblioteca iniciou parcerias com universidades. A equipe treinada é multiplicadora de conhecimento para os colegas, que também podem estudar a partir da consulta a um guia com informações.
Além disso, foram feitos treinamentos para utilizar melhor o banco de dados e os aplicativos e cursos na plataforma de ensino à distância. “Isso ajudou os colaboradores a enxergarem melhor as nossas ofertas digitais que pareciam não estar visíveis para eles”, aponta Instisnke.
Lidar com a mão de obra é um processo bastante delicado. Ao mesmo tempo em que há a necessidade de reciclagem de conhecimento, existem também os colaboradores que resistem à mudança. E a complexidade dessas relações e a abordagem feita pelo palestrante Instisnke chamaram à atenção da bibliotecária Daniela da Guarda, de Cubatão. “Achei interessante ele dizer que lidar com funcionários com 30 anos de carreira, que têm resistência a fazer cursos de atualização, exige tato e sensibilidade”.
Em paralelo à oferta digital, a biblioteca é o espaço de fazer coisas, criar com as próprias mãos, de desenvolver a “cultura maker”. E na biblioteca municipal de Hamburgo os funcionários também são treinados, por pedagogos, para fazer esse tipo de eventos. “O perfil do bibliotecário mudou”, resume o palestrante.
Na Bücherhallen, uma das atividades que atrai bastante público é a oficina de circuitos eletrônicos integrados. Nela, as crianças podem construir periféricos para computador, fazer
testes e brincar em grupo. Outro exemplo de diversão é o jogo “Caça ao Tesouro”, que é realizado com os celulares dos usuários e aplicativos gratuitos, ou de maneira analógica, com a intervenção de um monitor. Importante destacar: nem sempre os jogos são digitais. Uma experiência realizada pelos próprios frequentadores foi, à época do centenário das sufragistas, a criação de um jogo de tabuleiro no qual as feministas, que lutavam pelo direito ao voto, fugiam da polícia.
“Oferecemos uma experiência única, que pode ser desenvolvida na biblioteca – e é tudo criado e coordenado por nós”, diz Instisnke.
A biblioteca é, acima de tudo, o ponto de encontro. Ela reúne pessoas que fazem tricô juntas. Ou blogueiros e podcasters que nunca se viram “ao vivo”, mas querem tomar café e trocar ideias. “Nos concentramos em aumentar a infraestrutura técnica, disponibilizar equipamento. Mas o mais importante é a biblioteca como local gostoso, onde todos são bem-vindos. Na sociedade, é um dos últimos locais não-comerciais”, diz o palestrante.
A gamificação é lúdica
A gamificação é uma linguagem que faz uso do design e da mecânica de jogos para enriquecer contextos diversos com o objetivo de instruir, influenciar comportamentos e incentivar a conquista de resultados práticos. Este recurso lúdico é usado na Bücherhallen para fidelizar clientes que, no site, giram em torno de 7,5 mil visitantes diários. O alvo principal, conta Instinske, são jovens e adultos com até 35 anos, mais abertos a esse tipo de ação. Feito o cadastro, o usuário ganha pontos que podem ser trocados, por exemplo, pela sacola de tecido da biblioteca ou por ingressos de algum evento cultural. Este é recurso que motiva e aumenta a frequência de público.
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