Sobre palhaços, risadas e inclusão
09 DE setembro DE 2011

A realidade palhacística está sempre ali, nunca dorme, mas frequentemente tentamos escondê-la atrás de um terno bem cortado, um corte de cabelo imponente, palavras rebuscadas ou até mesmo através de posturas ditas sérias, imponentes ou importantes. Uma função, um salário, um título podem aparentemente destacar a importância de alguém sobre os outros. Mas também destaca cada detalhezinho daquela natureza ridícula de humanidade. Somos, independente (ou não) de qualquer relação social, ridículos. E isso é bom.
"Velhas ridículas com chapéus absurdos, mulheres com sacolas de plástico na cabeça para se proteger da chuva, chapéus e casacos que encolheram, homens de negócios com pastas típicas.O mundo está povoado de palhaços.
- Federico Fellini em Fellini por Fellini
Não confunda palhaço com aquele que é feito de idiota. Frequentemente usamos o termo para criticar algo ou alguém. O palhaço não é feito de idiota. Ele é idiota por si só. É a ingenuidade pura de lógica própria e instintiva.
O Clã - Estúdio das Artes Cômicas é um núcleo cênico que pesquisa a realidade cômica brasileira a partir da linguagem do palhaço - o momento em que as máscaras cotidianas caem e dão lugar apenas ao indivíduo ridículo em sua totalidade no fazer artístico. São parceiros recorrentes da Biblioteca de São Paulo em espetáculos, contações de história e intervenções. Sempre sucesso.

Por muitos domingos eles animaram a biblioteca com suas personas-palhaças. No dia 7 de setembro, comemoração do dia da independência, eles encarnaram personagens bem especiais. Caracterizados como a família real portuguesa eles divertiram gente de todas as idades - pois palhaço não é nem deve ser apenas para crianças - através de técnicas cômicas inspiradas nessa tradição.
Ora, mas palhaço não tem que ter nariz vermelho?
Não necessariamente. Pense em Charles Chaplin, Buster Keaton, Didi Mocó. São palhaços que não usavam o signo universal da "classe", a menor máscara do mundo. E os palhaços-atores do Clã eram uma família real ridícula, engraçada, cheia de tiques, lógicas próprias, instintos e sentimentos escancarados: inveja, compaixão, raiva, ternura.
E o público ri quando um deles se atrapalha, ri quando sente compaixão, ri quando se identifica com alguma situação. Riem quando vêem figuras tão distintas e importante cometendo as mais incríveis idiotices.

O riso é democrático e todo ser humano é risível. O riso com o outro, o riso de si mesmo.
Risada tem tudo a ver com inclusão, pois é através dela que nos aceitamos e aceitamos ao próximo. E por isso palhaços têm tudo a ver com a Biblioteca de São Paulo, um lugar em que inclusão é a palavra-chave. Ninguém é melhor que ninguém, somos todos ridiculamente engraçados quando vistos de perto. E todos temos o potencial para despertar a verdade e a poesia de um palhaço.
Seja bem-vindo.
Foto e texto por Cauê Madeira
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