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  • Saberes indígenas e decolonização do pensamento marcam o segundo dia do 17º Seminário Internacional Biblioteca Viva

    12 DE junho DE 2026
    Crédito: Anderson Nascimento / SP Leituras

    O segundo dia do 17º Seminário Internacional Biblioteca Viva (10/06) foi marcado por debates sobre a decolonização do pensamento e o papel estratégico das bibliotecas na construção de um futuro sustentável. Realizado no Centro de Convenções Rebouças, o evento reuniu importantes vozes do pensamento indígena contemporâneo e especialistas internacionais para discutir como as instituições de leitura podem se alinhar à Agenda 2030 da ONU. O seminário conta com adesão de 835 participantes, somando os dois primeiros dias.


    A palestra inaugural do segundo dia foi conduzida por Nathalice Bezerra Cardoso (HAW Hamburg, Alemanha), pesquisadora especializada em bibliotecas verdes e sustentabilidade. Nathalice apresentou um modelo prático articulado em três eixos — infraestrutura, gestão e serviços — e defendeu que qualquer biblioteca pode iniciar sua transição sustentável a partir de ações simples, sem depender de grandes investimentos. 


     Nathalice Bezerra Cardoso (HAW Hamburg, Alemanha), pesquisadora especializada em bibliotecas verdes e sustentabilidade, defendeu que qualquer biblioteca pode iniciar sua transição sustentável a partir de ações simples, sem depender de grandes investimentos

    A pesquisadora também indicou uma calculadora de ODS desenvolvida por ela, disponível em libraryscience.de, que permite às bibliotecas diagnosticar quais objetivos estão sendo trabalhados e onde há lacunas. "Parece uma missão impossível, mas é possível fazer com pequenas ações", afirmou. A palestra destacou ainda o dado de que 26% dos bibliotecários em países de língua portuguesa desconhecem os ODS, reforçando a urgência de formação continuada no setor.



    A mesa Entre bibliotecas, leituras e literaturas reuniu a psicóloga e escritora Geni Núñez, o escritor e educador indígena Kaká Werá e a escritora Rita Carelli, com mediação de Tarso de Melo. O debate explorou o lugar da palavra nas cosmovisões indígenas e o que isso tem a dizer para as bibliotecas públicas. Geni Núñez lembrou que desde o século XVI a escrita foi subvertida pelos povos indígenas como ferramenta de autoria e resistência. Kaká Werá propôs olhar para as bibliotecas como florestas: uma diversidade de singularidades que se entrelaçam e, ao se entrelaçar, geram vida. A mesa reafirmou que acolher a literatura indígena não é um gesto de inclusão, mas o reconhecimento de que há outros modos de ver, sentir e dizer o mundo.


    No período da tarde, a especialista portuguesa Susana Silvestre ministrou a palestra Bibliotecas visionárias: sustentabilidade, cidadania e relevância pública na era da Agenda 2030, mediada por Valéria Martin Valls (SP Leituras). Silvestre defendeu a necessidade de alinhar as estratégias das bibliotecas com os critérios de ESG (Environmental, Social, and Governance), tornando-as espaços de inovação e participação cidadã. 


    Durante a apresentação foi enfatizado que a sustentabilidade no setor não deve ser restrita ao conceito de bibliotecas verdes, mas compreendida como um compromisso com a saúde pública, a inclusão de vozes marginalizadas e o combate à desinformação. "Vocês são o futuro e o presente da informação. Têm o poder de mudar o mundo porque cuidam, envolvem e transformam as pessoas através do diálogo que faz a democracia", afirmou Susana. 


    Para a palestrante, as instituições de leitura são essenciais para enfrentar a fragilidade democrática e promover o bem-estar social. O "Active Citizenship Game" foi apresentado como ferramenta que utiliza o design thinking para estimular a participação cívica e a escuta ativa. Segundo ela, a Agenda 2030 se materializa quando a biblioteca deixa de impor modelos e passa a construir serviços de forma colaborativa, consolidando-se como um polo de inovação onde o ato de cuidar e envolver o cidadão é o motor da transformação social.


    A mesa-redonda Gestão e educação socioambiental para ação cidadã reuniu Claudia Visoni e Fernanda Marques mediadas por Marina Ferreira (Pé de Feijão) para debater como a prática direta na terra e a mobilização comunitária podem transformar as bibliotecas em polos de resiliência climática. Claudia Visoni, fundadora da Horta das Corujas, destacou a urgência de uma mudança cultural que reconecte a urbanização à produção de alimentos. "Uma floresta crescendo e abraçando uma biblioteca é, para mim, a melhor imagem da mudança cultural que precisamos fazer", afirmou a ambientalista, que também defendeu o papel das bibliotecas como refúgios seguros para a população em tempos de extremos climáticos.


    Fernanda Marques, coordenadora na Associação Comunitária Despertar, compartilhou estratégias de engajamento juvenil e revitalização territorial na zona sul de São Paulo, enfatizando que a escuta ativa é o motor da gestão democrática. Ela relatou que a participação dos jovens na tomada de decisão fortalece o sentimento de pertencimento. "Trabalhar a memória do território é essencial, a inovação também pode ser uma revalorização do antigo que responda às nossas necessidades atuais", pontuou. A mesa reforçou que as bibliotecas podem ser espaços vivos de produção de novas culturas e enfrentamento dos desafios planetários.


    A sessão de pôsteres digitais do segundo dia apresentou uma diversidade de projetos que reforçam o papel social das bibliotecas, como a mostra de experiências artísticas e literárias no sistema prisional da Biblioteca Sinhá Junqueira e o programa de apoio pedagógico Estação Palavra, em Pardinho. As iniciativas também contemplaram o plantio cultural do Sesc Bahia e o projeto Rio de Leitura, no Rio Grande do Norte, além de ações focadas em cidadania e inclusão nas bibliotecas comunitárias de Santos e Diadema. 


    Os participantes também puderam interagir com a estação temática Percurso Mata Atlântica, promovida pela Pé de Feijão, que trouxe uma abordagem prática sobre sustentabilidade para o evento. A sessão de painéis destacou a força dos territórios com o relato sobre a Quilomboteca Osvaldina Valadares, do Pará, e a apresentação do atlas cultural da Rede Beija-flor, de Santo André. O debate, mediado por Vanessa Sousa, também abordou o projeto Biblioarte, voltado a estudantes em privação de liberdade. O encerramento do dia foi marcado pelo sorteio de prêmios, incluindo kits da BibliON e livros dos autores participantes.


    Vanessa Sousa durante mediação dos painéis

    Serviço

    17º Seminário Internacional Biblioteca Viva - Bibliotecas Verdes: Consciência Socioambiental e Ação Cidadã


    11 de junho de 2026

    Biblioteca de São Paulo e Biblioteca Parque Villa-Lobos

    Evento gratuito

    Programação completa e inscrições:

    bibliotecaviva.org.br


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