Oscar 2026: grandes filmes do ano se inspiraram em grandes livros
11 DE março DE 2026
Crédito: SP Leituras/Divulgação Marcos Vinícius Almeida
A corrida pelo Oscar 2026 consagra a literatura como uma fonte inesgotável para o cinema. Entre os finalistas de melhor roteiro e direção, obras como Hamnet e Uma batalha após a outra revelam que o segredo de uma boa adaptação reside, não na fidelidade, mas na liberdade criativa do cineasta em reinterpretar o original.
Desde que a primeira câmera foi ligada, o cinema olha para a estante de livros em busca de inspiração. Essa é uma "relação de amor intensa", como define a crítica de cinema, jornalista e roteirista Isabella Faria. “Claro que a gente sempre teve filmes originais, mas a gente também teve sempre filmes adaptados de obras literárias”, diz.
Cópia infiel
Para Isabella Faria, o grande mérito das adaptações que estão entre os finalistas de melhor filme do Oscar de 2026 foi a coragem de trair o papel em nome da imagem. “Quando a adaptação funciona, não é porque o filme foi fiel ao livro. Mas porque ele foi honesto com o próprio meio", explica. Segundo ela, a literatura entrega a densidade e o mundo interno, enquanto o cinema devolve com "imagem, ritmo e corpo".
Isabella aponta que filmes como Hamnet e Sonhos de Trem são exemplos claros dessa libertação. Enquanto o primeiro transforma a introspecção do livro de Maggie O’Farrell em algo visceral e visual, o segundo, baseado no livro de Denis Johnson, troca o texto pelo silêncio da paisagem. "O cinema acontece quando você não fica preso ao livro. A indústria não premia fidelidade, premia autoridade", pontua a jornalista.
A armadilha do respeito excessivo
O escritor André de Leones, entusiasta dos trabalhos de Thomas Pynchon, corrobora essa visão ao analisar a trajetória de Paul Thomas Anderson.
“É interessante porque ele adaptou dois romances do autor: Vício inerente e Vineland. E é também interessante porque ele adotou estratégias distintas nessas adaptações”, explica Leones. “A primeira é fidelíssima ao livro e, por isso, por ser tão preso à narrativa literária, tão ‘respeitoso’, o filme sofre com problemas de ritmo — no meu entender. Vício inerente pediria uma levada mais irmãos Coen, algo tipo O Grande Lebowski”, comenta.
Para Leones, o novo longa, Uma batalha após a outra (baseado em Vineland) acerta o tom justamente ao usar o original apenas como ponto de partida. “Ao voltar a Pynchon, Paul Thomas Anderson optou por criar livremente a partir do original. E o resultado é bem melhor. No entanto, não creio que o filme vá além do romance em nenhum momento: ambos são sátiras ambidestras, por assim dizer”, explica o escritor.
Isabella Faria nos lembra que Frankenstein, de Mary Shelley, é um dos livros mais adaptados da história do cinema. “É muito legal ver uma visão de um cara que tem o terror, os monstros, como principal foco nos seus trabalhos”, diz a crítica de cinema. “Ele não abandonou a sua essência de diretor só para se encaixar no Frankenstein.”
Como resume a jornalista: "quando o filme se sustenta sozinho, o livro vira uma referência, e não uma muleta".
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Você encontra alguns dos livros e autores que inspiraram os finalistas do Oscar 2026 no acervo da Biblioteca de São Paulo, Biblioteca Villa-Lobos e BibliON.
Marcos Vinícius Almeida é Analista de Comunicação da SP Leituras, organização social parceira da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo, responsável pela gestão da Biblioteca de São Paulo, Biblioteca Parque Villa-Lobos, BibliON e pelas ações do SisEB. É Mestre em Literatura e Crítica Literária.
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