O poeta do Amazonas
30 DE março DE 2012
Thiago de Mello no evento Meus Poemas Sou Eu Escrito, em 1º de setembro de 2011
Seu poema mais conhecido é Os Estatutos do Homem.
Artigo I
Fica decretado que agora vale a verdade.
agora vale a vida,
e de mãos dadas,
marcharemos todos pela vida verdadeira.
Artigo II
Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.
Artigo III
Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.
Artigo IV
Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.
Parágrafo único:
O homem, confiará no homem
como um menino confia em outro menino.
Artigo V
Fica decretado que os homens
estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar
a couraça do silêncio
nem a armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa
com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida
antes da sobremesa.
Artigo VI
Fica estabelecida, durante dez séculos,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.
Artigo VII
Por decreto irrevogável fica estabelecido
o reinado permanente da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo.
Artigo VIII
Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor.
Artigo IX
Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que sobretudo tenha
sempre o quente sabor da ternura.
Artigo X
Fica permitido a qualquer pessoa,
qualquer hora da vida,
uso do traje branco.
Artigo XI
Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo,
muito mais belo que a estrela da manhã.
Artigo XII
Decreta-se que nada será obrigado
nem proibido,
tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela.
Parágrafo único:
Só uma coisa fica proibida:
amar sem amor.
Artigo XIII
Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
e a festa do dia que chegou.
Artigo Final.
Fica proibido o uso da palavra liberdade,
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem.
Quer conhecer melhor a obra do poeta? Amazonas: no coração encantado da floresta e Amazonas: águas, pássaros, seres e milagres estão disponíveis para empréstimo na Biblioteca de São Paulo.
Amazonas: no coração encantado da floresta

O poeta Thiago de Mello retrata o mundo com o qual convive há mais de vinte anos, quando decidiu morar à beira do rio Paraná-do-Ramos, na pequena vila de Barreirinha, onde, aliás, ele nasceu. Para chegar em sua casa, desde Manaus, é preciso fazer 24 horas de viagem em barco grande. Nessa paisagem encharcada pelas águas e pelo verde da floresta, o autor recria sete conhecidas lendas amazônicas: O Calça-Molhada, Tucuxi dançarino, O prêmio de Ajuricaba, Curupira, O Mapinguari, Iara e A Cobra-Grande. Com ilustrações do artista Andrés Sandoval, a edição inclui glossário e índice de personagens.
Amazonas - águas, pássaros, seres e milagres

Um dos maiores expoentes de nossa literatura, o escritor amazonense Thiago de Mello nos oferece um presente: uma deliciosa viagem pela paisagem e pelo imaginário dessa porção mágica de nosso território, o pedaço mais verde do planeta. Ele nos apresenta as águas, a mata, a história e a cultura do povo amazonense.
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