No Segundas Intenções, Heitor Ferraz fala de poesia em dias de pandemia
18 DE junho DE 2020
O jornalista e poeta Heitor Ferraz Mello. Foto: Reprodução[/caption]Convidado do Segundas Intenções de segunda, 15 de junho, na programação da BSP, o jornalista e poeta Heitor Ferraz Mello falou sobre sua carreira, a produção em tempos de combate ao novo coronavírus e fez um diagnóstico da poesia nos dias atuais. Na conversa virtual, mediada pelo também jornalista e crítico literário Manuel da Costa Pinto, Ferraz Mello disse que há uma "produção poética muito interessante sendo feita nesse momento, apesar da minha própria dificuldade de fazer algo". E completou: "Quando temos muita vontade do verbo, acabamos nos recolhendo". Veja íntegra abaixo.
Mestre em Literatura Brasileira pela USP, onde defendeu a dissertação "O rito das calçadas: aspectos da poesia de Francisco Alvim", o escritor tem no currículo, entre outros, os livros de poesia "Coisas imediatas (1996-2004)" (2004), "Um a menos" (2009) e "Meu Semelhante" (2016) - todos pela Editora 7 Letras. Também é professor de Jornalismo Cultural e Jornalismo Literário na Faculdade Cásper Líbero.
Nascido na França, onde os pais brasileiros estavam trabalhando, Ferraz Mello desenvolveu uma predileção por alguns autores franceses. Um de seus autores preferidos é justamente o francês Charles Baudelaire (1821-1867), autor de "As flores do mal". "Eu sempre volto ao Baudelaire, mas nunca com a cabeça da poesia", diz ele. "Essa leitura é uma ilha onde me recolho de vez em quando por puro prazer."
Na conversa, Heitor e Manuel leram alguns poemas representativos do trabalho do escritor. Entre eles, "Minha casa", do livro "Hoje como ontem ao meio-dia":
Minha casa é um refúgio
De noite
quando o sono não chega
vou até o portão para fumar um cigarro
O homem protegido
sob uma pequena marquise de uma garagem
fala sozinho
igual ao meu filho quando brinca
O homem imita conversas
e revolve uma sacola de supermercado
Afasto-me do poema que os olhos espiões
poderiam indicar
Refugio-me entre artigos da casa
Aquele homem sob a marquise
permanece inabordável
Leram também "Antropófagos", do livro "Meu semelhante", que remete ao Oswald de Andrade, um dos criadores do Movimento Antropofágico na era modernista, que tanto influenciou Ferraz Mello. "É um poeta muito importante para mim e na minha formação. Acho que o mais importante é um certo olhar que ele tinha para a cidade em busca de um olhar mais humano", diz. Eis o poema:
Tendo visto que
ao contrário deles
os portugueses
enterravam seus inimigos
até a cintura
para depois os flecharem
e enforcarem
descobriram espantados
a tortura
a crueldade
que não fazia parte
de seus ritos
antropofágicos
O Segundas Intenções faz parte da programação da BSP no período de quarentena, que conta com várias outras atividades online - confira no site da biblioteca. No mês de julho, os encontros já estão marcados: no dia 13, na BSP, a conversa será com Bernardo Ajzemberg, e no dia 27, na BVL, será com Maria Valéria Rezende.
Com a necessidade de estimular o distanciamento social e outras medidas de proteção contra o contágio pelo novo coronavírus, a Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Estado de São Paulo criou o #Culturaemcasa, que amplia a oferta de conteúdos virtuais dos equipamentos.
Importante lembrar que a biblioteca está com atividades presenciais suspensas.
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