Diversidade das culturas indígenas foi o tema do último Segundas Intenções
15 DE maio DE 2023
O Segundas Intenções de maio na Biblioteca de São Paulo teve como convidada a escritora Rita Carelli, autora, entre outros títulos, do premiado romance "Terra Preta", vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura em 2021 na categoria “Melhor Romance de Estreia”.
Como de costume nos Segundas Intenções, o bate-papo mediado pelo jornalista Manuel da Costa Pinto começou com a origem do gosto de Rita pela escrita, suas influências e trajetória. A escritora paulista revelou que sempre sonhou com a atividade, mesmo criança. Na época, obviamente, ela dividia as projeções de futuro com outras também usuais para crianças como bombeiro, mas já havia em sua rotina um gosto pelas palavras, estimulado no ambiente familiar. Com pais de carreiras muito ligadas ao pensamento crítico e à produção de cultura e conhecimento, uma mãe antropóloga e um pai cineasta indigenista, o interesse pelos livros foi se desenvolvendo de forma bastante espontânea nos seus primeiros anos de vida.
Rita listou alguns livros que marcaram sua infância e adolescência, entre eles: "O menino do dedo verde", "Alice no país das maravilhas", "Momo e o senhor do tempo" e "O gênio do crime", em seus primeiros anos como leitora. "Aí comecei a ler os livros que minha mãe terminava de ler", revelou Rita, citando "100 anos de solidão" e "A casa dos espíritos". Falando um pouco sobre os caminhos que a levaram até a escrita, a convidada lembrou de seu período como atriz e de ter cursado a faculdade de letras na Universidade Federal de Pernambuco, formação que acabou abandonando. Fechando o rol de influências, Rita ainda mencionou autores de romances adultos como Clarice Lispector, Guimarães Rosa e Manoel de Barros.
Outro ponto determinante para a construção da identidade de Rita como autora foi a atuação de seu pai como indigenista, o que proporcionou à escritora uma rica experiência na infância e adolescência junto a culturas de diferentes povos indígenas brasileiros, tanto nas respectivas aldeias, como na própria casa da escritora, frequentada regularmente por produtores indígenas.
Foi a partir dessa experiência que Rita idealizou a sua primeira coleção de livros, que aproveitou o espaço promovido pela Lei nº 11.645, de 2008, que tornou obrigatório o estudo da história e cultura indígena e afro-brasileira nos estabelecimentos de ensino fundamental e médio do país, para difundir a diversidade dos povos indígenas em um material que tinha como público-alvo o infanto-juvenil. "O objetivo da coleção era fazer pontes com o universo indigena, já que o Brasil virou as costas para ele historicamente", observou, destacando que a forma como os indígenas eram retratados em seus ambientes escolares sempre a incomdou, "era muito chocante, para uma menina que frequentava aldeias, ir para a escola e ver que a mensagem que era passada é que eles eram coisa do passado".
Ao longo do bate-papo, Rita se aprofundou também na discussão de dois outros de seus livros sobre a temática, o premiado romance "Terra Preta" e "Minha família Enauenê", que narra um episódio que de fato ocorreu com a escritora.
A conversa se encaminhou para os autores indígenas que influenciaram a escrita de Rita e, entre outros nomes, a lembrança do título "Meu vô Apolinário: um mergulho no rio da (minha) memória", de Daniel Munduruku, mereceu atenção especial. "Foi por meio desse livro que aproximei minhas experiências da literatura", ressaltou a escritora. Ela também salientou que a ascensão de cada vez mais nomes indígenas como escritores a fez repensar o seu papel na carreira, "não cabe mais a mim fazer livros sobre indígenas", ponderou.
O encontro contou também com a tradicional participação do público presente e por meio das perguntas via Facebook.
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