#BSP10anos: Drauzio Varella fala sobre sua experiência na Casa de Detenção
11 DE fevereiro DE 2020
Drauzio Varella e Manuel da Costa Pinto em bate-papo especial no evento que comemorou 10 anos da BSP. Foto: Equipe SP Leituras[/caption]Após a cerimônia de 10 anos da Biblioteca de São Paulo, no domingo (9), Drauzio Varella falou sobre sua experiência atendendo os presos da Casa de Detenção, que ocupava o terreno onde hoje fica o Parque da Juventude, na Zona Norte da capital paulista. O médico oncologista, autor de "Estação Carandiru", "Carcereiros" e "Prisioneiras", participou de um bate-papo especial, sob a mediação do jornalista Manuel da Costa Pinto, e respondeu perguntas do público. Para ver a íntegra do evento é só visitar nossa página no Facebook.
Foi a primeira vez que Varella voltou à BSP desde a inauguração. Depois de receber a carteirinha de sócio da biblioteca, o médico falou ao público sobre como se sentia. "Esse espaço gera sentimentos contraditórios em mim, porque eu tenho um pouco de saudade daquela cadeia que existia aqui", disse ele. "Aprendi tanta coisa aqui, contribuiu para a minha formação de uma forma tão radical... E, de repente, um espaço de punição e de privação da liberdade vira uma biblioteca, que é um centro de irradiação da liberdade."
Nascido e criado no bairro do Brás, região Sudeste de São Paulo, Varella conta que quando criança ia ao cinema Rialto, onde um parente era gerente da sala e deixava que ele assistisse de graça às matinês. Entre seus filmes preferidos estava "Brutalidade" (1957), um drama prisional dirigido pelo francês Jules Dassin e estrelado por Burt Lancaster. "Era um filme em preto-e-branco sobre um grupo de prisioneiros que planejava uma fuga. Aquilo me marcou muito. Quando entrei no Carandiru pela primeira vez, aquela sensação veio de novo", contou ele.
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Drauzio Varella recebe sua carteirinha da BSP. Foto: Equipe SP Leituras[/caption]Como funcionava a Detenção
Além de explicar o funcionamento da Casa de Detenção, considerado na época o maior presídio da América Latina, com nove pavilhões e cerca de 9 mil detentos, Varella relembrou uma série de casos da época em que começou o trabalho, no fim dos anos 1980. Como quando passou a receitar Biotônico Fontoura, um tradicional fortificante a base de óleo de fígado de bacalhau, para os presos. "Eu tomava esse negócio quando era criança, então, não via problema nenhum. Até um dia que me disseram para parar, porque os presos adicionavam aquilo à Maria Louca (destilado caseiro feito com restos de comida e grãos)", disse ele.
Varella também falou de como estabeleceu um programa de prevenção da Aids na cadeia, testando os presos e as mulheres que faziam parte do programa de visitas íntimas. Foi no contato com as travestis que o médico se deu conta de que os internos sabiam como se proteger: com camisinhas. "O problema é que eles não tinham como, porque não tinham preservativos. Foi uma luta para convencer a secretaria a enviar, mas acabamos conseguindo que mandassem", disse ele.
O médico relembrou também a tragédia em que 111 presos foram mortos na Casa de Detenção, em 1992, em um episódio que ficou marcado na memória da cidade. Na hora em que se iniciou uma rebelião no Pavilhão 9, onde ficavam os réus primários, Varella já havia saído da prisão. Ele lembra que, no dia, estava na sala do diretor da casa, José Ismael Pedrosa, que comentara o clima tranquilo. "Eu fiquei um tempo lá e ele disse pra mim: 'Hoje, é difícil acontecer qualquer coisa. Sexta-feira, normalmente, eles estão arrumando as celas, se preparando para o fim de semana'. No fim, quando eu estava em casa, me falaram de uma rebelião e só acreditei quando ligaram a TV."
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