Aniversário de Amós Oz
04 DE maio DE 2012

Em seu discurso após o recebimento do Prêmio Príncipe das Astúrias de Letras, em 2007, Amós Oz explicou por que acredita na "literatura como ponte entre os povos".
"Senhoras e senhores,
Vim de Jerusalém para lhes falar de paz. Permitam que lhes fale no idioma da Bíblia.
Se adquirir uma passagem e viajar a outro país, é possível que você veja as montanhas, os palácios e as praças, os museus, as paisagens e os locais históricos. Se a fortuna lhe sorrir, talvez tenha a oportunidade de conversar com alguns habitantes do lugar. E voltará para casa carregado com um monte de fotografias e postais.
Mas, se lê um romance, adquire uma entrada para os recantos mais secretos de outro país e de outro povo. A leitura de um romance é um convite a visitar as casas de outras pessoas e a conhecer seus cantos mais íntimos.
Se não for mais do que um turista, talvez tenha a oportunidade de se deter em uma rua, observar uma velha casa do bairro antigo da cidade e ver uma mulher debruçada à janela. E, então, dará a volta e seguirá o seu caminho.
Mas, como leitor, observa não só a mulher que olha pela janela. Está com ela dentro da sua casa, e até dentro da sua cabeça.
Quando lê um romance de outro país, você é convidado a passar à sala de outras pessoas, ao quarto das crianças, à cozinha, e mesmo ao dormitório. É convidado a entrar em suas dores secretas, em suas alegrias familiares, em seus sonhos.
É por isto que acredito na literatura como ponte entre os povos. Creio que a curiosidade tem, de fato, uma dimensão moral. Creio que a capacidade de imaginar o próximo é um modo de se imunizar contra o fanatismo. A capacidade de imaginar o próximo não só o converte em um homem de negócios de maior sucesso e num melhor amante, mas também em uma pessoa mais humana.
Parte da tragédia árabe-judia está na incapacidade de muitos de nós, judeus e árabes, de nos imaginarmos uns aos outros. De imaginar realmente os amores, os medos terríveis, a ira, os instintos. Demasiada hostilidade impera entre nós, e demasiadamente pouca curiosidade.
Os judeus e os árabes têm algo em comum: ambos sofreram no passado sob a pesada e violenta mão da Europa. Os árabes foram vítimas do imperialismo, do colonialismo, da exploração e da humilhação. Os judeus foram vítimas de perseguições, discriminação, expulsões e, ao final, do assassinato de um terço do povo judeu.
Caberia supor que duas vítimas e, sobretudo, duas vítimas de um mesmo perseguidor, desenvolveriam certa solidariedade entre si. Desgraçadamente as coisas não são assim, nem nos romances nem na vida real. Ao contrário, alguns dos conflitos mais terríveis são aqueles que se produzem entre duas vítimas de um mesmo perseguidor. Os dois filhos de um pai violento não têm necessariamente razão para se amar. Com freqüência, vêem refletida um no outro a imagem do progenitor cruel.
Exatamente assim é a situação entre judeus e árabes no Oriente Médio: enquanto os árabes vêem os israelenses como novos cruzados, a nova reencarnação da Europa colonialista, muitos israelenses vêem nos árabes a nova personificação dos nossos perseguidores do passado: os responsáveis pelos pogroms e os nazistas.
Esta realidade impõe à Europa uma responsabilidade especial na solução do conflito árabe-israelense: no lugar de alçar um dedo acusador na direção de uma ou outra das partes, os europeus deveriam mostrar afeto e compreensão e prestar ajuda a ambas as partes. Vocês não têm razão para continuar elegendo entre ser pró-israelenses ou pró-palestinos. Devem estar a favor da paz.
A mulher da janela pode ser uma mulher palestina de Nablus e pode ser uma mulher israelense de Tel Aviv. Se desejarem ajudar a que haja paz entre as duas mulheres das duas janelas, é conveniente ler mais sobre elas. Leiam romances, queridos amigos, aprenderão muito.
As coisas iriam melhor se também cada uma dessas duas mulheres lesse sobre a outra. Para saber, ao menos, o que faz com que a mulher da outra janela tenha medo ou esteja furiosa, e o que lhe dá esperança.
Não vim nesta tarde dizer-lhes que ler livros vá mudar o mundo. O que sugeri é que creio que ler livros é um dos melhores modos de compreender que, definitivamente, todas as mulheres, de todas as janelas, necessitam urgentemente da paz.
Quero agradecer aos membros do júri do Prêmio Príncipe de Astúrias que me outorgaram este maravilhoso prêmio. Muito obrigado e meus melhores desejos a todos vocês.
Shalom Uvrachá. Paz para todos".
Saiba mais sobre Amós Oz
Amós Oz no Roda Viva, em 2 de janeiro de 2012 (foto: Jair Magri/Roda Viva)
No início deste ano, o escritor participou do programa Roda Viva, da TV Cultura, e falou sobre sua infância, o título de pacifista e o conflito árabe-israelense. Você pode conferir essa edição do programa clicando aqui.
Na Biblioteca de São Paulo você encontra os seguintes livros do escritor:
- O monte do mau conselho
- Uma certa paz
- De amor e trevas
- Rimas da vida e da morte
- Cenas da vida na aldeia
- A caixa-preta
- Sumri
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