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  • A leitura rompe paredes e paradigmas

    23 DE setembro DE 2011


    Foi dado início às atividades do PRALER – Prazeres da Leitura, programa da Secretaria de Estado da Cultura que, por meio de carrinhos-estante itinerantes, disponibiliza consulta e empréstimo de livros e gibis em hospitais, unidades básicas de saúde, asilos, abrigos, albergues e unidades prisionais.

    Em setembro foram atendidas a Casa de Saúde São João de Deus, em Pirituba, e o Centro de Progressão Penitenciária, em São Miguel Paulista.

    Os mediadores de leitura da Biblioteca de São Paulo (BSP) realizaram atividades nos locais, duas vezes por semana. Ações desse tipo incentivam à leitura e contribuem para a formação de público-leitor, em lugares nem sempre destinados a esse fim.

    Carlos Braga, o Cadu, foi um dos animadores de leitura da BSP que participou da ação na Casa de Saúde São João de Deus. Ele conta que a primeira proposta da atividade foi organizar os livros de forma interativa e participativa, para ganhar a atenção de todos os pacientes. Alguns, até chegaram a abandonar a arrumação antes mesmo da hora, para ler. Quando terminavam, pegavam outro livro.

    Em seguida foi realizada a leitura coletiva. Os poucos que relutaram em participar se renderam de vez nesse momento. Tudo virou bagunça das boas. Eles se espremiam para ler na sua vez (e até mesmo na dos outros), resultando um clima muito agradável, de gostosas gargalhadas. Na hora de ir embora, todos – pacientes e mediadores – já aguardavam ansiosamente a chegada do próximo dia.

    “Chegamos lá com a ideia de mostrar que é fácil ser autor e escritor; saímos de lá com a certeza de que distúrbios psíquicos não tocam em momento algum na potencialidade sensitiva e emotiva, na paixão, na felicidade de fazer e criar algo.”
    Carlos Braga, mediador de leitura.



    Cadu diz que saiu da Casa de Saúde “com a alma lavada, um turbilhão de ideias, sensações, dúvidas, um sentimento de quebra de paradigmas, preconceitos e tantas outras emoções incapazes de serem expressas em palavras”. As atividades seguiram durante o mês.

    As mediadoras Ana Lúcia e Letícia Fagiani visitaram o Centro de Progressão Penitenciária, presídio feminino de São Miguel Paulista. As detentas se envolveram completamente, chegaram a declamar poemas e a contar histórias dos livros que mais gostaram. Paulo Alan e Abdael Silva levaram a atividade Letras em Harmonia, com músicas de roda, seguidas de um bate-papo sobre letras, contexto e temática das canções – sucesso entre os sócios da BSP.

    “Entre uma canção e outra, histórias emocionantes surgiram. Até as agentes penitenciários cantaram os refrãos e o tempo parecia voar, assim como a imaginação”.
    Paulo Alan, animador de leitura.





    Sylvio Andrade, coordenador de atendimento da BSP, esteve na Casa de Saúde São João de Deus, ao lado de Cadu. Ele revelou algumas conversas que teve com os pacientes. Contou de E., o primeiro paciente com quem teve contato, que logo se interessou por um título da coleção de livros, com a personagem Bruxonilda. Sylvio apresentou o livro, mostrou as ilustrações; E. caiu na gargalhada por conta “do tamanho da bunda da bruxa”.

    P, outro paciente, refletiu: “Uma árvore caiu na floresta, não havia ninguém lá para ouvi-la. Essa árvore realmente caiu? Eu disse que árvores só caem para os homens. O saci me disse que, na verdade, elas deitam e dormem”.

    “Mediar leituras nos leva a apresentar o gosto pelos livros, a compartilhar nossos tesouros e a contar histórias. Mas é necessário ter aquela escuta que leva ao aprofundamento na narrativa pessoal, pois sem esse sujeito que sabe contar a sua história, não há o outro para entrar na leitura e se apropriar do tesouro literário”.
    Sylvio Andrade, coordenador de atendimento.



    As atividades de leitura na Casa de Saúde são, segundo Sylvio, de fundamental importância para os internos, por proporcionar a possibilidade de visitar outro mundo, que é o da ficção. Ele considera incrível a maneira como é possível encontrar na literatura ecos de nosso vazio existencial ou de nossa inquietude. “A literatura pode falar para o sentimento de ausência de destino, para que possamos até mesmo questioná-lo, estabelecendo outras buscas, infindáveis, certamente, mas renováveis”, diz o coordenador de atendimento.

    Nesse dia, a despedida da Casa de Saúde ocorreu ao som de O Calhambeque, sucesso de Roberto Carlos, na voz de uns dos pacientes. Foi uma brasa, mora!

    Texto por Cauê Madeira

    Foto por Monalisa Lins
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